Meu receio não transmite sossego,
Meu silêncio não me aquece, e nego...
Quando trago sua mão ao meu peito
Com a convicção de que suspeito,
Quente a sensação, gelado o desejo,
Frio no coração, calor no beijo,
Cálculos tão frios, tão quentes enganos,
Todos derretidos pelos anos...
Sofro sem sofrer, mas sofro assim mesmo.
Eu medito quando queimo a esmo.
Este desespero não me abandona,
Não sou o Romeu de Verona...
Mas a Primavera canta aquecida,
Excita os invernos da vida.
Não é do olhar frio que brota a tristeza,
Senão do calor da beleza
Quando ergo minhas mãos para o céu.
É triste o anil do seu véu
Quando meu olhar não tem endereço -
Só vejo este teto de gesso.
quinta-feira, 9 de junho de 2022
quarta-feira, 30 de março de 2022
Como ataca a soja o percevejo -
Como suga a soja o percevejo
Ceifa a vida a Morte sem manejo.
Já que nunca foi qualquer segredo,
Surge para todos que têm medo -
Colhe a Morte todos que têm medo -
Ceifa a vida a Morte, tarde ou cedo.
Pode o sol brilhar, por ser estrela,
Pode anoitecer, pode tardar,
Pode o assassino nos sangrar...
Sob o sol virá, como costuma,
Nuvem branca, branca nuvem, branca...
Tinta branca em tela que foi branca...
Manche a tela branca a branca tinta.
quinta-feira, 23 de dezembro de 2021
O reflexo do que vejo,Eu desejo,
Sou eu ali, refletido,
Sou animal sonolento,
Mas o vento,
Mas o vento vinha vindo.
Sou eu ali, preparado
E parado,
Minhas mãos foram atadas,
Os meus pés estão descalços,
Meus pedaços,
Meus pedaços nas calçadas...
O reflexo do que vi,
Eu vivi
Enquanto o vento soprava,
Não estava preparado,
Fui levado,
Fui levado, pois levava...
Em seguida, vem a chuva,
Que renova,
Em seguida, a correnteza
Rompe o que o peito perdeu,
E rompeu,
E rompeu minha represa.
sábado, 18 de dezembro de 2021
Eu acho que perdi o que ganhei,
Mas a ninguém importa o que eu achar.
Eu acho que não sei mais me importar,
Se devo perder, só eu perderei.
Se mereço vencer, perdoarei
Esta vontade louca de ganhar,
O título a vencer me tira o ar,
Mesmo vencendo, nunca vencerei.
Serei um perdedor mal humorado
Após tudo explicado e anunciado,
Hipócrita serei, se desmentir,
Que minto, que não quero mais vencer,
Que não me abalo mais quando perder.
Na verdade, não tenho aonde ir...
sexta-feira, 17 de dezembro de 2021
Sonhei que meu presente se quebrou...
Meu próprio sonho, meu sonho querido,
Caiu das mãos inábeis do bandido,
O meu sonho outro sonho me tomou.
Sonhei que um novo sonho se formou.
Nos sonhos, tudo faz todo sentido.
Sonho abrangente, sonho resumido,
Um presente me trouxe e me tirou.
Não sei o que fazer com os pedaços,
Não sei o que pensar do que ganhei.
O sábio diz que devo agradecer...
Meus sonhos atam nós nos meus cadarços,
Eu amarro o que fui ao que serei.
Tudo pode ser sonho e pode ser.
segunda-feira, 19 de julho de 2021
Muitos desta fonte em vão beberam, ávidos.
Doidos vinham, doidos iam... Somem... Pronto...
Bocas secas, febres, rostos brancos, pálidos...
Muitos deles sofrem dores fortes - muitos! -
Muitos deles não sorriem nunca mais,
Muitos deles não vieram quando prontos,
Muitos bebem pouco, pouco é demais,
Poucos sabem, mas ninguém explica nada,
Quem explica sem saber explica tudo,
Mais explica a gente em voz sem voz, calada.
Deixem para o tolo o som vazio do todo,
Pois a fonte esgota o novo e o velho fogo,
Pois a fonte é o fogo, seu forte afago.
sexta-feira, 10 de julho de 2020
Da desordem de todos que nada buscam,
Nada além de silêncio e som se confundam
No profundo rio raso de seu mergulho.
Tarde fria de estia do mês de julho
Esfriou a certeza em seus corações...
Onde mora a coragem dos guardiões?
Onde mora a verdade de seu orgulho?
Onde sentem que sabem como saber,
Se tocar é tocar, e se ver é ver,
Se viver é sorrir, e morrer, tristeza?
Adiante este mundo segue, impassível.
Sem sondar que sondar nos é impossível.
A vida é a verdade da Natureza.