sábado, 27 de julho de 2013

Atalhado

"Não imagina meus tantos carinhos",
sussurrou num ouvido meu, e riu,
ao virar-me, ao fitá-la. "Nós sozinhos
estamos neste frio, puta o pariu!"

"Tantas putas esfriam nos caminhos
onde tantos procuram seu calor,
querida", respondi-lhe, "e que mais frio
que o cobre recebido do doutor?"

"Escapa dos doutores o moral
se faço-os descer seu sangue ao pau,
se imaginam como fá-los-ei",
respondeu-me. Vencido, concordei.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Sesta (em jejum)

And all I loved, I loved alone.
(Edgar Allan Poe)

Assista ao Meia-noite em Paris hoje
Com a testa de febre quente. Os olhos
A faiscar as órbitas. Bafeje
A boca em intervalos. Vis atalhos

Encurtem dos aromas sua sege
Desde a cozinha. Desde a rua. Desde
O quintal. Desde a sala... Do capim...
A trepadeira pisa essa parede.

(Como pode, deitado, ver da fresta
Na janela. Pequena fresta aberta).
Pequena sonolência. Segue o filme.
Segue o sonho. Desperta; e está com fome...

terça-feira, 11 de junho de 2013

Branca flor

Ao contemplarmos ouro --e diamantes--
--Repara-- o tempo passa, e seu valor
Saltava-nos aos olhos há instantes
--Pincelados de tão perfeita cor.

A cor da branca flor fenece antes...
Debruça-se, lamenta-se e então cai.
--Também nós lamentamos ser passado
O tempo da açucena que se vai...

Ao relermos das vidas os resumos
--Repara-- o tempo passa, e perseguimos,
Como Layne no verso da canção
Diz, mentiras em erros de impressão.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Se me diz

Desejava saber ser a verdade,
Se me diz que me diz do coração
--Que juntos tomaremos a cidade--,
Mas sei que (se me diz) me diz em vão.

Desejava buscar felicidade.
Ao menos seus olhares fossem puros
Eu vê-la-ia enorme e enternecia,
Mas sei que me abandona nos apuros.

As mulheres não são imaculadas,
As oportunidades calculadas
Longe verá que a bomba me explodiu
--E a puta fingirá que não me viu.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Moleque

Algum tempo atrás pude ser moleque,
Moleque irresponsável, distraído,
E que a fonte dos gozos também seque
Não suspeitei a tempo, fui banido,

Adeus, Terra do Nunca! Ser moleque,
Quem diria, tem data pra expirar!
Onde tudo da vida tem seu prazo
Não há encarregado de acordar

Pra vida quem não quer ser acordado,
Infelizmente... Tolo e descuidado
Algum tempo atrás fui, fui negligente:
Quem é que me acordou tão de repente?

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Bagagens

Mariposa, mariposa,
Tu vais queimar tuas asas!
(Casimiro de Abreu)

Eu próprio carreguei minhas bagagens.
Sofri sozinho o peso do pesar
De carregar cá dentro tais bobagens
Até nada restar para ocupar.

Eu próprio viajei minhas viagens
Carregado do medo e da esperança
Até que essa esperança torna medo
Que me virá vergar e que me vença.

Até que essa esperança torna dúvida
Nas expressões da minha cara estúpida
(Enquanto eu carregar sem perceber
Que nada já me resta que perder).

quarta-feira, 22 de maio de 2013

O percevejo

O voo sensual do percevejo
A procurar faminto a planta e planta
A seiva nutritiva com seu beijo
Para deixar de sê-lo, haja tanta.

O beijo do faminto percevejo...
A voar por incertas direções
Quais se vê padecerem maus amores
Os tolos, insensatos corações.

Sem reparar arrisca em voo falto
E pousa um coração de amor repleto,
Desses, em murcha planta colocada
Por quem lhe suga amor sem lhe dar nada.