Você frouxo vingou a alta encosta
Em seu caminho posta por fortuna
Como pedágio à alma que se enfuna,
Como enfunada esteve a alma posta
Nesse traje de carnes de que gosta.
Foi rósea, tal flora da piúna,
Agora é negra alga da lacuna,
Restou, malbaratada e mal disposta.
Tem ainda amanhã nova batalha
Onde nova derrota e esforço vão
Ser-lhe-ão a mortalha que lhe embrulha
O fumo de tão pálida ilusão.
Pite como um cigarro vil de palha
O orgulho desse frouxo coração.
quinta-feira, 22 de setembro de 2016
quarta-feira, 21 de setembro de 2016
Rotina
Outra página aberta
Da rotina de alguém,
Pois ninguém se comove,
Não se carpe ninguém
A cumprir com um dia
Que a um dia sucede
Para outro chegar
Que nem cheira e nem fede
Como o dia que cai
A tardar já, também,
Para outro chegar,
Da rotina de alguém;
Outra página aberta
Presa às páginas soltas
A soltarem-se ao vento
Entre as idas e as voltas.
Da rotina de alguém,
Pois ninguém se comove,
Não se carpe ninguém
A cumprir com um dia
Que a um dia sucede
Para outro chegar
Que nem cheira e nem fede
Como o dia que cai
A tardar já, também,
Para outro chegar,
Da rotina de alguém;
Outra página aberta
Presa às páginas soltas
A soltarem-se ao vento
Entre as idas e as voltas.
quinta-feira, 8 de setembro de 2016
Quem há?
Minha face parece meditar
Em sua expressão, mas não sei dizer
Que é que em quem medita faz pensar,
Que é que em quem medita fá-lo crer
Na máscara que escolhe para usar,
Se sei que não possui em si saber.
Eu sei, mas por saber ser ignorante
Entristeço-me e ponho uma careta
Em minha cara feia, e, vacilante,
Tento encarar a gente, que é escorreita.
Há em todos um louco delirante
A pensar possuir razão perfeita.
Cada um se defende como pode
E cada um fará esforço inútil
Sem saber, e, se o sabe, quem acode
Ao chamado de seu motivo fútil?
Com seu motivo fútil enfim concorde,
E em concertar qualquer coisa de útil
Aplique-se. Quem há, que ajudar pode?
Em sua expressão, mas não sei dizer
Que é que em quem medita faz pensar,
Que é que em quem medita fá-lo crer
Na máscara que escolhe para usar,
Se sei que não possui em si saber.
Eu sei, mas por saber ser ignorante
Entristeço-me e ponho uma careta
Em minha cara feia, e, vacilante,
Tento encarar a gente, que é escorreita.
Há em todos um louco delirante
A pensar possuir razão perfeita.
Cada um se defende como pode
E cada um fará esforço inútil
Sem saber, e, se o sabe, quem acode
Ao chamado de seu motivo fútil?
Com seu motivo fútil enfim concorde,
E em concertar qualquer coisa de útil
Aplique-se. Quem há, que ajudar pode?
terça-feira, 6 de setembro de 2016
Perplexo
Notamos só crescer em nós idade.
Não notamos crescer sabedoria.
Notamos só surgir melancolia;
Atar em nós no peito um nó covarde
Com que singramos sós pela cidade
No enfrentamento vão de mais um dia;
Pois quem que esteja são que vingaria
Em extrair da vida a ambiguidade?
Com ser humano vem viver perplexo
E perplexo morrer. Com ser humano
Vem viver num casulo desconexo
Donde se tenta não cair insano
Ao enxergar o caos em seu reflexo
Por centenas de dias todo ano.
Não notamos crescer sabedoria.
Notamos só surgir melancolia;
Atar em nós no peito um nó covarde
Com que singramos sós pela cidade
No enfrentamento vão de mais um dia;
Pois quem que esteja são que vingaria
Em extrair da vida a ambiguidade?
Com ser humano vem viver perplexo
E perplexo morrer. Com ser humano
Vem viver num casulo desconexo
Donde se tenta não cair insano
Ao enxergar o caos em seu reflexo
Por centenas de dias todo ano.
quarta-feira, 24 de agosto de 2016
Acontece
Acontece que estou triste
E não vejo onde há beleza
Porque a mim a natureza
Existindo que inexiste.
Se calhar, porque estou triste
Que me surge esta tristeza
Só cercada de incerteza.
Não a sinto e já me existe.
O triste ao belo procura
Por pura ingenuidade.
Beleza a dor não lhe cura.
Tristeza não dói, não arde.
Uma insípida tortura
A amargar a Eternidade.
E não vejo onde há beleza
Porque a mim a natureza
Existindo que inexiste.
Se calhar, porque estou triste
Que me surge esta tristeza
Só cercada de incerteza.
Não a sinto e já me existe.
O triste ao belo procura
Por pura ingenuidade.
Beleza a dor não lhe cura.
Tristeza não dói, não arde.
Uma insípida tortura
A amargar a Eternidade.
segunda-feira, 22 de agosto de 2016
Destino
Estranho destino
O deste menino
Estranho e sozinho.
Cruzou seu caminho,
Feroz e letal,
Medonho animal
Saído dos sonhos
Dos seres medonhos
Dalgum matagal
Do etéreo onde o Mal
Assenta-se além.
As garras das patas,
O fogo nas vistas,
As presas à mostra,
À destra e à sestra
O seu corpanzil,
tal qual pau-brasil,
Vermelho, e delgado,
Em ágil bailado
Que lembra um felino
Confunde o menino,
Pois não lhe parece
Tentar atacá-lo;
Talvez assaltá-lo
Enquanto assustado
Por ver-se cercado
Seu medo lhe cresce.
Não logra fugir,
Não há discutir
Tentar escapar
À besta sem par,
Tenaz assassina
Que vidas rapina,
Sem pares no ardil,
Que o Inferno pariu?
Assim lhe parece.
No auge do transe
A testa ele franze
Agora que nota
Que tal besta ignota
Está refletida,
E é só seu reflexo,
A sombra e o anexo
Da fera temida,
Que agora o detém.
"Não posso entender;
Se dei com o espelho,
Mas não apareço;
Pois desde o começo
Que quem quer se ver,
Quão jovem, quão velho,
Se gordo, se esguio,
Atenta ao reflexo,
E nada mudou..."
"E nada mudou",
Responde-lhe a fera,
"O mundo é o mesmo.
A fera que espera
Diante do espelho
Já foi um menino
De estranho destino,
Que em mim se tornou".
O deste menino
Estranho e sozinho.
Cruzou seu caminho,
Feroz e letal,
Medonho animal
Saído dos sonhos
Dos seres medonhos
Dalgum matagal
Do etéreo onde o Mal
Assenta-se além.
As garras das patas,
O fogo nas vistas,
As presas à mostra,
À destra e à sestra
O seu corpanzil,
tal qual pau-brasil,
Vermelho, e delgado,
Em ágil bailado
Que lembra um felino
Confunde o menino,
Pois não lhe parece
Tentar atacá-lo;
Talvez assaltá-lo
Enquanto assustado
Por ver-se cercado
Seu medo lhe cresce.
Não logra fugir,
Não há discutir
Tentar escapar
À besta sem par,
Tenaz assassina
Que vidas rapina,
Sem pares no ardil,
Que o Inferno pariu?
Assim lhe parece.
No auge do transe
A testa ele franze
Agora que nota
Que tal besta ignota
Está refletida,
E é só seu reflexo,
A sombra e o anexo
Da fera temida,
Que agora o detém.
"Não posso entender;
Se dei com o espelho,
Mas não apareço;
Pois desde o começo
Que quem quer se ver,
Quão jovem, quão velho,
Se gordo, se esguio,
Atenta ao reflexo,
E nada mudou..."
"E nada mudou",
Responde-lhe a fera,
"O mundo é o mesmo.
A fera que espera
Diante do espelho
Já foi um menino
De estranho destino,
Que em mim se tornou".
sexta-feira, 19 de agosto de 2016
Ouça
Embora possa ouvir, finge-se surdo
E diz que tudo ouviu sem ouvir nada.
Quisera fosse a voz sua calada.
Quisera todo tolo fosse mudo.
Quisera eu, por bem maior do mundo,
A razão, por mil vezes usurpada,
Por uma vez apenas fosse dada
Em razão de aplicado e longo estudo;
Mas a fogueira enorme das vaidades,
Ainda um dia a arder um dia a mais,
Mais lenha se lhe lançam dia a dia,
Mais crescem os desejos e as vontades,
Cresta as vistas, se longas por demais;
Mas se creu sábio o louco, enquanto ardia.
E diz que tudo ouviu sem ouvir nada.
Quisera fosse a voz sua calada.
Quisera todo tolo fosse mudo.
Quisera eu, por bem maior do mundo,
A razão, por mil vezes usurpada,
Por uma vez apenas fosse dada
Em razão de aplicado e longo estudo;
Mas a fogueira enorme das vaidades,
Ainda um dia a arder um dia a mais,
Mais lenha se lhe lançam dia a dia,
Mais crescem os desejos e as vontades,
Cresta as vistas, se longas por demais;
Mas se creu sábio o louco, enquanto ardia.
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